Novos elementos da investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master vieram a público em 1º de setembro e colocaram em evidência a relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do banco. Divulgado pelo ministro André Mendonça, o material reúne dados obtidos a partir da quebra do sigilo do celular de Vorcaro, incluindo diálogos atribuídos aos dois e informações sobre negociações milionárias entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes.
O caso do Banco Master tem sido investigado desde 2024, porém ganhou repercussão pública nacional em novembro de 2025, com a prisão de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, por suspeita de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. Com o avanço das investigações, revelou-se uma extensa rede de relações do banqueiro com autoridades políticas e integrantes de instituições públicas, além de suspeitas de participação de servidores do Banco Central em irregularidades. O episódio pode ser a maior fraude bancária já registrada contra o Sistema Financeiro Nacional.
As revelações recentes fizeram com que o inquérito ganhasse atenção nas redes sociais. No Instagram e no X (antigo Twitter), no período de 2 a 9 de setembro, foram coletadas 11.008 publicações sobre o assunto, que juntas somaram 2.974.804 comentários e 27.571.266 interações.
Em meio ao cenário eleitoral, diferentes narrativas atribuem sentidos à controvérsia, mobilizando enquadramentos de perseguição, proteção e interferência política. Parte significativa da conversação tem girado em torno de supostas associações entre as ações de ministros do STF e os interesses políticos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), inserindo o Caso Master em uma das frentes do embate eleitoral nas plataformas digitais.

O que foi destaque no Instagram
Durante o período analisado o Instagram acumulou 9.954 publicações que, em conjunto, somaram 26.729.938 interações (soma de curtidas e comentários) e 438.506.114 visualizações. Para melhor compreensão das narrativas que circularam entre 2 e 9 de setembro, as postagens foram processadas e adaptadas para o modelo de rede semântica, que permite a visualização ampliada de palavras com maior número de menções, bem como suas ligações com outros termos.
A rede semântica do Instagram apresentou três agrupamentos (clusters) de palavras relacionados a publicações sobre as recentes tensões internas no STF decorrentes da divulgação de documentos relativos às investigações sobre o caso do Banco Master.
Um dos conjuntos, de cor rosa, reúne mensagens sobre a retirada do sigilo de documentos da investigação por André Mendonça, em 1º de setembro, que trouxe a público diálogos atribuídos a Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Outro agrupamento, de cor azul, concentra conteúdos relacionados às ações de Edson Fachin, presidente do STF, para conter a crise no tribunal diante das tensões entre os ministros Mendonça e Moraes.
Por fim, o cluster verde apresenta um conjunto lexical que indica a incorporação do caso à disputa política e eleitoral, contrapondo os dois candidatos que lideram a corrida presidencial: Lula e Flávio Bolsonaro.
Entre os principais atores que movimentaram as discussões na plataforma, destacam-se perfis com objetivo informativo, como veículos de notícias e páginas de fofoca, humor, entretenimento e política. Paralelamente, observa-se a atuação de usuários que aderem a um dos lados do embate, manifestando apoio ou rejeição a Moraes ou Mendonça. Esse movimento ocorre com maior intensidade em páginas de apoio a Lula e Flávio Bolsonaro.
A rede semântica reflete, nesse sentido, os desdobramentos das tensões no Supremo ao longo da primeira semana de setembro. O percurso parte das novas revelações sobre o Caso Master, passa pela atuação de Fachin na tentativa de conter a crise na Corte e chega à incorporação desses episódios à disputa política.
Dinâmica narrativa no X
No período analisado, foram coletadas 1.054 publicações no X, que somaram 850.328 interações, entre comentários, repostagens e curtidas. Apesar do volume inferior ao registrado no Instagram, a rede semântica revela uma conversação mais fragmentada, com narrativas concorrentes sobre a atuação dos ministros, da Polícia Federal e os possíveis efeitos políticos das investigações.
No contexto das disputas discursivas na plataforma, nota-se que uma parcela dos usuários defende que Alexandre de Moraes deveria ser investigado e afastado. Outra parcela acusa André Mendonça de interferir nas investigações relacionadas ao Banco Master com o objetivo de atingir Moraes e favorecer politicamente Flávio Bolsonaro.
Muitos internautas interpretam, ainda, as ações de Moraes e Mendonça a partir de seus efeitos sobre o cenário político, associando os movimentos dos ministros a interesses eleitorais. Se, no Instagram, a associação do caso às eleições presidenciais ocupava um espaço secundário na conversação, no X essa perspectiva ganha centralidade, concentrando-se principalmente no conjunto semântico verde.
No agrupamento azul, observa-se que o conflito narrativo também alcança a Polícia Federal, especialmente após Mendonça determinar, em 8 de setembro, o afastamento de Andrei Rodrigues, diretor-geral da instituição. As discussões no X apresentam a PF ora como responsável pela produção de informações capazes de revelar possíveis irregularidades, ora como um órgão que estaria sendo utilizado para monitorar atores, oferecer proteção ou interferir no andamento das apurações. Dessa forma, a instituição deixa de aparecer apenas como responsável pela investigação e passa a ocupar papel relevante nas disputas em torno da condução do caso.
Nos clusters laranja e rosa, observa-se o debate em torno de um suposto abafamento do caso Master, articulando a controvérsia à memória da Operação Lava Jato. Um internauta afirma que “acabaram com a Lava Jato”, estabelecendo uma relação entre os dois episódios e sugerindo que atores semelhantes estariam atuando para impedir ou limitar o avanço das investigações.
Nesse conjunto de mensagens, o uso do verbo “abafar” contribui para produzir um enquadramento de ocultação, enquanto a associação entre o caso Master e Alexandre de Moraes reforça uma narrativa de suspeição em torno do ministro. Em sentido oposto, André Mendonça é apresentado positivamente por parte desses usuários como um ator capaz de impedir esse suposto processo de abafamento.
Do Caso Master à disputa eleitoral
A análise das duas plataformas mostra que as revelações sobre o Caso Master ultrapassaram rapidamente o debate sobre a investigação e as tensões internas no STF. No Instagram, a conversação acompanhou principalmente os desdobramentos institucionais do episódio, desde a divulgação dos documentos até a atuação de Fachin diante da crise. No X, por outro lado, a disputa política aparece de forma mais central e fragmentada, com acusações concorrentes sobre Moraes, Mendonça e a atuação da Polícia Federal.
Em comum, as duas plataformas revelam a incorporação do Caso Master ao debate eleitoral. As ações dos ministros e das instituições envolvidas passam a ser interpretadas também a partir de seus possíveis efeitos sobre a corrida presidencial, aproximando o episódio de narrativas favoráveis ou contrárias às principais candidaturas. Assim, uma controvérsia inicialmente relacionada às investigações sobre o Banco Master passa a integrar também a disputa política que mobiliza o debate digital.

