A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e as investigações sobre o Banco Master deslocou os candidatos à Presidência do centro da conversa eleitoral no X entre os dias 2 e 8 de setembro. Enquanto, na semana anterior (26 de agosto a 1º de setembro), a discussão estava mais diretamente organizada em torno da disputa entre os presidenciáveis, no período analisado, o caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça passou a estruturar os principais núcleos da rede. No Instagram, em contraste, as candidaturas permaneceram mais presentes, com destaque para a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) e para Augusto Cury (Avante) como alternativa aos dois candidatos.
O caso ganhou força com a divulgação de mensagens envolvendo Vorcaro e ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes. André Mendonça, ministro do STF e relator de investigações relacionadas ao Banco Master, tornou públicos documentos e informações da Polícia Federal. A divulgação provocou tensão dentro do Supremo, e a crise se transformou em um conflito institucional, com troca de acusações, decisões judiciais conflitantes e disputas envolvendo também a direção da Polícia Federal.
O levantamento entre os dias 2 e 8 de setembro reuniu 699 publicações dos candidatos à Presidência no Instagram e no X, com 139.158 comentários. Somadas as 5.511 curtidas recebidas por essas manifestações, foram registradas 144.669 interações nas duas plataformas.
Narrativas presentes no X
No período analisado no X, foram coletados 12.703 comentários distribuídos em 428 publicações de cinco candidatos: Lula, Flávio Bolsonaro, Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Os comentários receberam 1.825 curtidas, totalizando 14.528 interações. Augusto Cury ficou fora da coleta por não ter publicado no período.
No X, a conversa passou a ser dominada por um acontecimento institucional externo à disputa eleitoral: a prisão de Vorcaro pela Polícia Federal, associada à atuação do ministro do STF André Mendonça. O episódio também provocou divergências entre usuários identificados com o campo bolsonarista, com manifestações de apoio a Mendonça, por supostamente agir contra Moraes, e pedidos de soltura ou manifestações em defesa do banqueiro.
Essa dinâmica está condensada no cluster roxo, o mais expressivo em termos de disseminação, formado por palavras como “STF”, “Alexandre”, “Moraes”, “André”, “Mendonça”, “PGR”, “PF”, “impeachment”, “manifestação” e “setembro”. O tema aparece em 52 das 56 publicações rastreadas nesse recorte. A movimentação começou com manifestações de apoio a Mendonça e o uso de hashtags como “#NÁRUACONTRAMORAES” e rapidamente migrou para convocações de manifestações no 7 de Setembro, em defesa do ministro e pelo impeachment de Moraes: “7 de SETEMBRO TODOS NAS RUAS em APOIO ao Min André Mendonça”.
O termo “golpe de Estado” aparece como vocabulário-ponte dentro desse mesmo agrupamento. A expressão é utilizada tanto por quem acusa Lula e Moraes de articular um golpe quanto por quem classifica dessa maneira a mobilização contra o STF. Um comentário nesse sentido — “Tá armando um Golpe de Estado guerreiro?” — chegou a 485 curtidas, o maior pico isolado da base no período.
O cluster amarelo — formado por termos como “banco”, “Master”, “corrupção”, “Lulinha”, “golpe”, “República”, “INSS” e “escândalo” — dá continuidade ao escândalo financeiro já mapeado na semana anterior, mas agora reorganizado em torno da prisão de Vorcaro, e não apenas da rachadinha (que envolve a família Bolsonaro por suposto desvio de salários de assessores parlamentares) e do financiamento do filme Dark Horse, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo de investigações no STF conduzidas pela Polícia Federal.
O agrupamento permanece geograficamente próximo ao cluster vermelho, reforçando um padrão observado anteriormente: acusações de corrupção aparecem associadas a ataques pessoais.
Esse movimento é ainda mais evidente no cluster vermelho, o maior do grafo depois do verde, que reúne “Bolsonaro”, “Flávio”, “ladrão”, “corrupto”, “vagabundo”, “mentiroso”, “Vorcaro”, “milhões”, “rachadinha”, “campanha”, “pai” e “filho”. Na semana anterior (26/08 a 01/09), insultos pessoais e o escândalo financeiro apareciam em dois clusters vizinhos, mas distintos — azul-claro e verde-oliva. Nesta análise, surgem fundidos em um único agrupamento, indicando uma associação mais direta, nos comentários, entre acusações de corrupção dirigidas a Flávio Bolsonaro e seu suposto envolvimento com Vorcaro.
O cluster verde, formado por termos como “Lula”, “presidente”, “Brasil”, “voto”, “turno”, “reeleito”, “Renan”, “país” e “PT”, segue como o núcleo mais central da rede e conecta praticamente todos os demais agrupamentos. Essa centralidade está relacionada ao fato de grande parte dos comentários analisados responder diretamente a publicações do próprio Lula.
Também se destaca a dupla função do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, que aparece como nó de ligação entre dois núcleos diferentes. No cluster roxo, ele é acusado por usuários de blindar Moraes de um processo de impeachment, com comentários como “recebeu 155 milhões do Vorcaro”. Já no cluster verde-escuro/azul, ligado a “Senado”, “escala”, “6x1” e “trabalhadores”, é cobrado a votar a favor do fim da escala 6x1, cuja tramitação avançou na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado no período analisado, com listas de senadores que votaram contra a proposta circulando nos comentários. O caso mostra como um mesmo ator funciona como ponte entre uma discussão institucional e uma pauta trabalhista.
Os clusters menores — o ciano, com “direita”, “esquerda” e “paulista”, e o laranja, com “candidato”, “democracia” e “política” — não apresentam uma narrativa própria claramente definida. Funcionam principalmente como vocabulário de enquadramento ideológico genérico, utilizado tanto para elogiar quanto para criticar diferentes candidatos, o que ajuda a explicar sua posição periférica e menos conectada no grafo.
No conjunto, a rede do X revela uma mudança de eixo em relação à semana anterior: a disputa direta entre os candidatos perde espaço para a crise institucional em torno do STF, que passa a organizar parte significativa das discussões e se sobrepõe ao debate sobre propostas de governo.

Candidaturas seguem no centro no Instagram
No Instagram, a coleta abrangeu 271 publicações e contabilizou 126.455 comentários. Com 3.686 curtidas associadas a esse conteúdo, a rede alcançou 130.141 interações.
O grafo de palavras apresenta quatro agrupamentos principais. Diferentemente do movimento observado no X, as candidaturas continuam estruturando grande parte das discussões no Instagram. Assim como na semana anterior (26/08 a 01/09), os assuntos se concentram na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, além de evidenciarem Augusto Cury como uma alternativa aos dois candidatos. Ao mesmo tempo, o Caso Master e as discussões envolvendo o STF ganham espaço nos comentários e passam a ser incorporados às disputas entre apoiadores dos presidenciáveis.
O cluster rosa abrange comentários de apoiadores de Lula, que busca a reeleição para o quarto mandato. Os usuários citam com frequência o slogan “Brasil Soberano”, referente ao plano de medidas econômicas do governo federal para apoiar empresas e setores afetados por barreiras comerciais de outros países, instituído no último governo Lula. Também aparecem manifestações de expectativa por uma vitória do candidato no primeiro turno.
Já o cluster vermelho reúne a base eleitoral de Flávio Bolsonaro. Os usuários enfatizam slogans adotados em sua campanha e também utilizados anteriormente por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). “Deus” e “família” são citados com frequência e integram lemas associados à candidatura de Flávio. As palavras “justiça” e “esperança” também aparecem para expressar a forma como sua candidatura é apresentada por essa base.
Assim como no relatório anterior, Cury mantém presença significativa nas discussões. O cluster azul apresenta o candidato do Avante como uma alternativa à polarização neste momento da campanha, reunindo palavras como “direita”, “esquerda”, “chega” e “mudança”. Comentários que manifestam insatisfação com a polarização ideológica associam sua candidatura à possibilidade de uma mudança na política brasileira.
O quarto assunto de maior repercussão no grafo não está diretamente relacionado a nenhum dos presidenciáveis. O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o STF ganhou espaço nos comentários das postagens dos candidatos. O cluster apresenta numerosas menções a André Mendonça, ministro do Supremo e relator de investigações ligadas ao Banco Master, com usuários também apontando uma possível proximidade entre ele e o banqueiro. Alexandre de Moraes foi igualmente citado após a divulgação de mensagens com Vorcaro. As narrativas envolvendo os dois ministros alternam-se entre avaliações positivas e negativas, conforme o posicionamento político manifestado pelos usuários.
A análise dos clusters menores também indica projeção de Renan Santos. Embora não apareça com a mesma intensidade que Lula, Flávio e Cury, o candidato do Missão possui uma base regular de usuários que interage com suas publicações. Entre os presidenciáveis analisados, Renan registra o maior número de curtidas nos comentários de suas postagens.
As discussões sobre o fim da escala 6x1 também permanecem presentes, acompanhadas de cobranças ao Senado pela aprovação da PEC.

