O Supremo Tribunal Federal (STF) vem enfrentando uma crise interna desde a primeira semana de setembro, envolvendo a quebra do sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) determinada pelo próprio ministro André Mendonça. O documento traz mensagens que revelam uma suposta relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado em um caso de fraude contra o sistema financeiro envolvendo o Banco Master.
A revelação ganhou repercussão nas redes, tornando-se uma discussão pública sobre impunidade, perseguição, proteção e interferência política. Na análise da semana passada (2 a 9 de setembro), observou-se que boa parte da conversação se concentrava em alegações sobre associações entre os ministros do STF e os interesses políticos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), transformando o caso Master em uma pauta latente na disputa eleitoral das redes.
No Instagram e no X (antigo Twitter), no período de 10 a 17 de setembro, foram coletadas 13.351 publicações sobre o assunto. Somadas, elas receberam mais de 2.870.898 comentários e 23.051.382 interações. Apenas no Instagram, onde a base também disponibiliza esse indicador, foram registradas 495,6 milhões de visualizações. As narrativas da análise desta semana contemplam tanto a percepção dos internautas sobre os eventos já trabalhados anteriormente quanto a sessão ocorrida na última terça-feira (15), na qual os ministros do STF se reuniram para debater os impactos do caso, incluindo a decisão de Mendonça de abrir vista à PGR sobre o relatório da PF, que reúne indícios contra Moraes e cuja validade cabe ao plenário avaliar antes de decidir sobre a abertura de uma investigação.
O julgamento foi interrompido a pedido do ministro Flávio Dino, que agora tem prazo de até 90 dias corridos para devolver o processo e liberar a pauta para uma nova deliberação no Supremo. Além disso, os ministros avaliam um pedido de ordem do decano Gilmar Mendes para que a petição sobre as acusações contra Alexandre de Moraes (PET 16.662) seja julgada em conjunto com a petição que trata de acusações contra André Mendonça (PET 16.704), esta levada à frente por Moraes como um contra-ataque.
O que foi destaque no Instagram?
Durante o período analisado, o Instagram acumulou 11.530 publicações que, em conjunto, somaram aproximadamente 22.315.032 interações (somando-se comentários e curtidas). A rede semântica da plataforma é composta principalmente por léxicos presentes em publicações de perfis informativos, como veículos de notícias e páginas dedicadas a política, fofoca, humor e celebridades. Seus conteúdos acompanham os acontecimentos relacionados ao caso, incluindo análises, recortes das falas dos ministros e exposição dos materiais discutidos na Corte. Essa característica se torna especialmente evidente no dia 15, data da sessão extraordinária do STF, que concentrou 3.790 publicações, cerca de um terço de toda a coleta do período.
Como é possível observar no grafo, as discussões se organizam em quatro agrupamentos principais. O maior deles, o cluster roxo, concentra a repercussão da crise dentro do próprio Supremo, aproximando termos como “Moraes”, “Mendonça”, “STF”, “sessão”, “julgamento”, “tribunal”, “plenário”, “Gilmar”, “mensagens” e “investigação”. Os fatos do dia 15 assumem particular importância, dada a presença de termos como “sessão”, “julgamento” e “terça-feira”, confirmando que os acontecimentos no plenário constituíram um dos principais eixos da conversação.
O agrupamento verde está mais diretamente associado à condução das investigações e às decisões tomadas sobre o caso, reunindo termos como “Fachin”, “Edson”, “Master”, “investigações”, “sigilo”, “decisão”, “pedido”, “processo” e “documentos”. A posição de Fachin nesse conjunto é significativa diante de sua participação nos desdobramentos institucionais da crise. Já o cluster laranja se organiza em torno de Vorcaro e dos materiais que fundamentam a investigação, reunindo “celular”, “dados”, “PF”, “relator”, “acesso”, “íntegra”, “conteúdo” e “material”. Nesse núcleo, a atenção se desloca para os elementos extraídos do celular do ex-banqueiro e para sua importância na compreensão da amplitude das relações de Vorcaro com integrantes do Judiciário.
Por fim, o agrupamento azul-claro torna mais evidente a dimensão político-eleitoral da controvérsia, com a presença de termos como “Lula” e “Bolsonaro”. As análises publicadas por perfis noticiosos também mostram como a crise do STF vem sendo relacionada à disputa eleitoral. Nesse contexto, um levantamento da AtlasIntel/Bloomberg buscou investigar os impactos dos recentes conflitos na Corte nas candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
A rede semântica revela, assim, uma conversação estruturada simultaneamente por quatro dimensões: a crise e a deliberação no STF, a condução institucional das investigações, as evidências relacionadas a Vorcaro e a apropriação político-eleitoral do episódio. Mais do que substituir a discussão institucional, o enquadramento eleitoral se conecta a ela, oferecendo uma das chaves pelas quais os acontecimentos no Supremo são interpretados.

A conversação pública no X
No período analisado, foram coletadas 1.821 publicações, que somaram 736.350 interações (no caso, a soma de comentários, repostagens e curtidas). A estrutura temática, entretanto, apresenta diferenças importantes em relação à outra plataforma. Embora o volume de publicações seja inferior ao registrado no Instagram, a rede semântica do X apresenta uma conversação mais fragmentada, marcada tanto pela disputa eleitoral quanto por manifestações críticas à atuação do STF e de seus ministros.
No maior agrupamento, de cor azul, os termos “Moraes”, “Mendonça”, “André”, “Alexandre”, “Master”, “banco”, “Vorcaro”, “Fachin”, “investigação”, “relatório” e “sigilo” mostram que a conversação se organiza fortemente em torno do confronto sobre a condução das investigações. Diferentemente do Instagram, a sessão do dia 15 tem uma preponderância menor, de modo que os acontecimentos do plenário são incorporados a uma discussão mais ampla e contínua sobre as decisões dos ministros e o material relacionado ao Banco Master. O agrupamento laranja concentra justamente a dimensão mais diretamente relacionada à sessão e à crise institucional, reunindo “STF”, “Supremo”, “sessão”, “julgamento”, “plenário”, “tribunal”, “Gilmar”, “PF”, “relatório” e “mensagens”.
O cluster roxo, por sua vez, amplia o número de integrantes da Corte associados à controvérsia, incluindo nomes como Nunes Marques e Dias Toffoli. A combinação desses agrupamentos mostra que a discussão não permanece restrita ao embate entre Moraes e Mendonça, mas se expande para decisões, manifestações e posicionamentos de outros ministros.
Os agrupamentos azul claro, laranja e roxo tratam, assim, especificamente da crise do STF, com atenção não apenas à sessão ocorrida no dia 15, mas também ao suposto envolvimento de outros ministros com Daniel Vorcaro. É possível perceber, no X, um descontentamento com a postura dos ministros e com a politização da Corte. Tal insatisfação se materializa em mensagens como: “O STF não é um tribunal é uma quadrilha. O pior STF em 200 anos...rs, superior tribunal de pessoas inferiores…”. Nota-se a indignação dos internautas com o escândalo em uma instituição vista como permeada por interesses econômicos e disputas pessoais.
No cluster verde, a dimensão político-eleitoral se torna mais facilmente identificável, com termos como “Lula”, “Bolsonaro”, “Flávio” e “Dino”. Tais termos funcionam como um enquadramento por meio do qual certas mensagens interpretam a atuação dos ministros e as mudanças na condução dos processos. As publicações de maior repercussão ajudam a compreender essa dinâmica. Entre elas estão mensagens sobre a retirada de processos das mãos de Mendonça, acusações dirigidas a Fachin, alegações contra o próprio Mendonça, discussões sobre os dados obtidos do celular de Vorcaro e conteúdos que associam Moraes ao governo Lula. Observa-se, assim, uma disputa pela atribuição de responsabilidade, na qual diferentes ministros são alternadamente apresentados como responsáveis por interferir, proteger, revelar ou dificultar as investigações.
Em meio a essa disputa, também é perceptível a presença de críticas à imprensa provenientes de diferentes campos políticos. Tanto apoiadores de Lula quanto de Flávio Bolsonaro acusam jornalistas e veículos de comunicação de enquadrar seletivamente a crise para favorecer um dos lados da disputa eleitoral. De um lado, lemos: “Primeiro a imprensa cria a farsa de que o escândalo do Master é de todo mundo. Não é. Foi parido, nutrido e protegido pela direita. Agora, insuflar a população contra o STF”. Em sentido oposto, outra publicação afirma que “a mídia sabuja continua querendo emporcalhar a vida de André Mendonça. O jogo é sujo. Muito sujo”. As duas manifestações partem de posições políticas distintas, mas compartilham a percepção de que a cobertura jornalística participa da disputa pela interpretação da crise.
Dinâmicas do debate digital na crise do STF
A comparação com a semana do dia 2 a 9 de setembro mostra que a crise no STF ganhou espaço no debate digital, mas o aumento da conversação não foi acompanhado por maior engajamento. No período inicial, foram identificadas 11.008 publicações sobre o caso; entre 10 e 17, o número chegou a 13.351, um crescimento de 21,3%. No sentido contrário, as interações (soma de curtidas e comentários no Instagram e de curtidas, comentários e repostagens no X) caíram 16,4%, passando de 27,6 milhões para 23,1 milhões.
A disputa política também permanece como uma dimensão importante da conversação, mas apresenta menor centralidade diante dos novos desdobramentos da crise. Na semana anterior, as associações entre o caso Master, os ministros do STF e a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ocupavam posição de destaque nas narrativas identificadas. Na nova coleta, essas conexões continuam presentes nos grafos das duas plataformas, mas dividem espaço com uma discussão mais concentrada na sessão do dia 15, no julgamento, nas investigações e nos conflitos entre os próprios ministros. O caso Master, portanto, continua atravessado pela disputa eleitoral, mas a politização perdeu espaço relativo à medida que os acontecimentos internos do Supremo passaram a organizar mais fortemente o debate digital.

