Na reta final da campanha para o primeiro turno das eleições de 2026, uma polêmica conectou Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, à corrida pela Presidência da República e à atuação da imprensa nacional. A controvérsia teve início após um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes na GloboNews, em 24 de setembro, sobre rumores de que setores evangélicos estariam se mobilizando em torno de um projeto para retirar da santa o título de padroeira do país.
Colunista do Valor e comentarista da CBN e da GloboNews, Maria Cristina Fernandes afirmou que essa articulação teria levado o candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a se aproximar de setores católicos. A declaração foi interpretada como uma associação da suposta iniciativa evangélica ao senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), desencadeando uma intensa disputa discursiva nas redes sociais sobre a veracidade da informação.
Ainda em 24 de setembro, Flávio desmentiu a informação em suas próprias redes e afirmou não haver qualquer possibilidade de uma proposta desse tipo. O candidato do PL atribuiu as postagens à “milícia do PT” e acusou o partido de propagar fake news, afirmando que ele “só sabe fazer isso: mentir”.
Na madrugada do dia 25, a GloboNews se retratou e esclareceu que uma proposta semelhante havia sido apresentada em 2007, mas já estava arquivada desde 22 de agosto de 2008. A correção ampliou a repercussão do episódio e alimentou nas redes sociais as acusações de que o comentário havia disseminado uma informação falsa.
O debate impulsionado nas redes sociais ganhou força e alcançou o Supremo Tribunal Federal (STF), a Justiça Eleitoral, a Igreja Católica e a imprensa internacional, além de mobilizar eleitores e ampliar a dimensão política da controvérsia. O episódio passou a concentrar disputas discursivas em torno de fake news, liberdade de expressão e polarização política.
No Instagram e no X (antigo Twitter), entre 24 e 30 de setembro, 16.495 publicações reuniram 3.752.802 comentários e 27.044.650 curtidas, alcançando 30.797.452 de interações. No Instagram, única plataforma em que o levantamento permite contabilizar visualizações, o material monitorado superou 380 milhões de acessos.
Destaques no Instagram
A rede semântica do Instagram evidencia dois agrupamentos relacionados ao episódio: um direcionado à judicialização do caso (cluster laranja) e outro às repercussões políticas da suposta notícia falsa envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro (PL).
No primeiro eixo, ganha destaque o embate no STF entre os ministros André Mendonça e Flávio Dino. A discussão foi desencadeada por uma decisão de Mendonça, que também integra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinando a retirada de publicações que associavam Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
A disputa judicial ganhou um novo capítulo após a remoção de uma publicação do humorista Antonio Tabet, que recorreu ao Supremo contra a medida. O pedido foi apresentado em uma ação já em tramitação, sob relatoria de Flávio Dino, que discutia questão semelhante envolvendo a retirada de uma postagem sobre a inelegibilidade do ex-procurador da República e candidato ao Senado Deltan Dallagnol (Novo-PR). Dino acolheu o recurso e suspendeu a determinação de Mendonça, ampliando a divergência entre os ministros.
Em 28 de setembro, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino, restabeleceu a ordem de remoção e levou a controvérsia ao plenário do STF. Apesar da sucessão de decisões judiciais, esse aspecto teve espaço reduzido nas conversas analisadas no Instagram: menos de 4% das publicações mencionaram censura. Na plataforma, a discussão se concentrou sobretudo na disputa em torno da veracidade da informação e nas acusações de fake news.
Ao todo, no período analisado, foram processadas 8.094 publicações no Instagram, distribuídas entre 3.264 perfis, que somaram mais de 28,3 milhões de interações, considerando curtidas e comentários. O principal destaque individual foi Flávio Bolsonaro, com uma postagem que alcançou cerca de 865 mil interações e 9,6 milhões de visualizações.

Produção e repercussão no Instagram
Dois grupos dominaram a circulação da controvérsia no Instagram: imprensa e jornalistas, de um lado, e perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais, de outro. Juntas, as duas categorias responderam por 93,1% das 8.094 publicações analisadas e concentraram 78,8% das 28,3 milhões de interações.
Fora desse eixo, porém, ativismo e militância e atores políticos se destacaram pela diferença entre a pequena participação na produção de conteúdo (2,2% e 0,5%, respectivamente) e o espaço proporcionalmente maior alcançado nas interações (8,2% e 5,8%, respectivamente).
Entre 24 e 30 de setembro, foram identificados 3.264 perfis. A maior parcela pertence ao grupo de perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais: 1.802 contas (55,2%), responsáveis por 3.632 publicações (44,9%) e 11.434.257 interações (40,5%). Trata-se da categoria com maior participação na repercussão do conteúdo monitorado.
Imprensa e jornalistas aparecem em seguida nas interações, mas lideram a produção. Os 1.260 perfis classificados nessa categoria representam 38,6% das contas e publicaram 3.902 conteúdos, equivalentes a 48,2% da base. As postagens reuniram 10.817.517 interações, ou 38,3% do total. A comparação indica que o peso relativo da imprensa é maior na produção do que na repercussão, embora permaneça próximo de quatro em cada dez interações.
A relação entre quantidade de publicações e repercussão muda significativamente entre os grupos menores. Ativismo e militância representam apenas 1,2% dos perfis e 2,2% das postagens, mas respondem por 8,2% das interações — 2.322.756. É a maior diferença proporcional entre presença na produção e participação na repercussão observada no levantamento.
O mesmo movimento, em menor escala absoluta, aparece entre os atores políticos. Apenas 31 perfis (1%) e 38 publicações (0,5%) foram classificados nessa categoria, mas esses conteúdos alcançaram 1.645.099 interações, correspondentes a 5,8% do total. Influenciadores e comentaristas políticos também ampliam sua participação: 1,8% das publicações concentram 3,7% das interações.
Já os atores religiosos apresentam maior equilíbrio entre essas dimensões. Seus 115 perfis representam 3,5% da base e produziram 199 publicações (2,5%), responsáveis por 992.237 interações (3,5%).
Os dados revelam duas dinâmicas simultâneas. A circulação é quantitativamente dominada por imprensa e jornalistas e por perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais. Entretanto, quando se compara produção e repercussão, grupos diretamente associados à mobilização e à disputa política ganham peso. A diferença mostra que volume de publicação e capacidade de concentrar interações não se distribuem da mesma maneira entre os atores envolvidos na controvérsia.

Narrativas predominantes no X
Diferentemente do observado no Instagram, onde o tom das publicações oscilou entre a indignação com a circulação de uma informação envolvendo um candidato às vésperas do primeiro turno e manifestações em defesa de Nossa Senhora Aparecida, no X a conversação se concentrou em uma disputa de narrativas sobre a veracidade do episódio. De um lado, usuários afirmavam que a história seria uma fake news fabricada contra Flávio Bolsonaro; de outro, os perfis sustentavam que a informação era legítima e teria sido indevidamente desmentida.
A rede semântica do X apresenta quatro agrupamentos principais, que correspondem aos temas encontrados na análise.
No cluster verde, destacam-se termos relacionados à discussão sobre a suposta existência de uma iniciativa recente para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, como “senhora”, “aparecida”, “padroeira”, “título”, “Brasil”, “Flávio”, “Bolsonaro”, “retirar” e “tirar”. Nesse agrupamento, aparecem referências à proximidade de Flávio Bolsonaro e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com pastores e bispos, além de publicações que afirmam não haver proposta com esse objetivo em tramitação no Congresso Nacional. A tensão entre católicos e evangélicos também atravessa as conversas reunidas nesse núcleo de sentido.
No agrupamento roxo, concentra-se a disputa em torno da veracidade da informação. Apoiadores de Flávio acusam o PT e setores da imprensa de disseminar desinformação, enquanto perfis identificados com a esquerda contestam a classificação do episódio como fake news. Nesse campo, publicações sustentam que teria existido uma articulação de grupos evangélicos ligados ao bolsonarismo para levar adiante uma proposta desse tipo.
O núcleo azul reúne principalmente os desdobramentos judiciais da controvérsia, com destaque para as decisões dos ministros André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux. Nesse eixo também aparece a hashtag #CatólicosCensurados, utilizada em publicações que associam as decisões judiciais à censura de conteúdos relacionados ao episódio.
Por fim, o cluster laranja concentra referências às jornalistas Maria Cristina Fernandes, Daniela Lima, do portal UOL, e Miriam Leitão, do grupo Globo, apontadas por internautas como participantes da repercussão da polêmica. Maria Cristina, autora do comentário que deu origem ao episódio, torna-se o principal alvo das críticas. Diversas publicações defendem sua responsabilização e chegam a pedir sua demissão do Grupo Globo, sob o argumento de que, dessa forma, ela poderia “fazer campanha em paz”.
Ao todo, foram coletadas 8.401 publicações no X, que somaram 3.047.425 interações, considerando retuítes, comentários e favoritos. Entre os conteúdos de maior repercussão, aparecem expressões como “urgente” e “bomba” em postagens que relacionam Nossa Senhora Aparecida à disputa eleitoral.
No conjunto analisado, observou-se que a discussão sobre a existência ou não de uma proposta para retirar o título de padroeira do Brasil se desdobrou em diferentes eixos narrativos, envolvendo religião, acusações de desinformação, atuação da imprensa, decisões judiciais e corrida presidencial.

Dinâmica diferente entre os perfis do X
Perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais dominaram a produção de conteúdo sobre a controvérsia no X, mas imprensa e jornalistas concentraram a maior parcela das interações. O primeiro grupo respondeu por 60,5% das 8.401 publicações analisadas e 35,9% das 3 milhões de interações, enquanto o segundo publicou 18% dos conteúdos e alcançou 38% de repercussão. Essa diferença mostra que volume de postagem e repercussão não seguem necessariamente a mesma distribuição.
Entre 24 e 30 de setembro, foram identificados 2.892 perfis. A maior parcela pertence ao grupo de perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais: 2.005 contas (69,3%), responsáveis por 5.080 publicações e 1.094.242 interações. Embora concentre mais de dois terços dos perfis e seis em cada dez postagens, a categoria responde por pouco mais de um terço das interações (35,9%).
A relação se inverte entre imprensa e jornalistas. Os 311 perfis classificados nessa categoria representam 10,8% das contas e produziram 1.516 publicações, equivalentes a 18% da base. Esses conteúdos, entretanto, somaram 1.158.018 interações, ou 38% do total. A participação da categoria na repercussão é, portanto, mais que o dobro de seu peso na produção.
Ativismo e militância aparecem como outro segmento relevante em volume. Seus 310 perfis (10,7%) produziram 1.051 publicações, correspondentes a 12,5% do total, e alcançaram 294.016 interações (9,6%). Já os atores políticos apresentam comportamento distinto: 128 perfis (4,4%) foram responsáveis por 317 postagens (3,8%), mas concentraram 282.298 interações, equivalentes a 9,3%. Nesse caso, a participação na repercussão supera em 5,5 pontos percentuais o espaço ocupado na produção.
Em comparação com o Instagram, o X apresenta uma distribuição mais concentrada em perfis pessoais, profissionais e influenciadores gerais na produção: eles representam 60,5% das publicações, ante 44,9% no Instagram. Já imprensa e jornalistas têm participação bem menor nos posts do X (18%) do que no Instagram (48,2%), embora liderem as interações no X, com 38%, enquanto no Instagram ficam em segundo lugar, com 38,3%, atrás dos 40,5% dos perfis pessoais.
Outra diferença aparece em ativismo e militância: no X, a categoria responde por 12,5% das publicações e 9,6% das interações; no Instagram, ocupa apenas 2,2% da produção, mas alcança 8,2% de repercussão. Nos atores políticos, a participação nas interações é maior no X (9,3%) do que no Instagram (5,8%).

