O debate desta terça-feira (29) na TV Gazeta promete ser quente a partir das 22h15, e as sabatinas promovidas por A Gazeta e CBN Vitória, entre 31 de agosto e 2 de setembro, já deram uma medida da temperatura para o encontro entre os candidatos ao governo do Espírito Santo.
Nos comentários das publicações sobre as entrevistas de Ricardo Ferraço (MDB), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Helder Salomão (PT) nos perfis de A Gazeta e CBN Vitória no Instagram, a discussão ultrapassou as propostas apresentadas aos jornalistas e reuniu comparações entre os candidatos, manifestações de apoio e rejeição, referências à política nacional e cobranças relacionadas à administração pública.
A análise dos comentários extraídos dos perfis de A Gazeta e CBN Vitória no Instagram, entre 30 de agosto e 11 de setembro, oferece indícios dos assuntos e dos possíveis confrontos políticos que cercam a disputa estadual às vésperas do debate de primeiro turno da TV Gazeta.
O levantamento é realizado pelo Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), no âmbito do projeto IA para Democracia.
Foram reunidas 55 publicações no Instagram entre 30 de agosto e 11 de setembro, com maior concentração de comentários nos dias 1º e 2 de setembro. Nesse intervalo, foram registradas 4.648 mensagens, cerca de dois terços de todo o material analisado. Ao todo, foram processados 7.015 comentários, que receberam 28.768 curtidas, totalizando 35.783 interações.
Reações às sabatinas
Nos comentários em torno de Ricardo, primeiro entrevistado da rodada de sabatinas, em 31 de agosto, foram registradas manifestações em defesa da continuidade da gestão estadual e críticas à sua atuação na reforma trabalhista, além de questionamentos sobre sua trajetória política e associações a Renato Casagrande (PSB), candidato ao Senado, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição à Presidência da República.
Entrevistado em 1º de setembro, Pazolini recebeu manifestações de apoio e rejeição à candidatura, além de associações à direita e ao bolsonarismo. Também foram registradas críticas à gestão de Vitória, à reforma da Previdência municipal e ao seu posicionamento sobre a escala 6x1.
Em torno de Helder, que encerrou a série de sabatinas em 2 de setembro, predominaram manifestações de apoio à candidatura, associadas à defesa dos trabalhadores e ao fim da escala 6x1. Também aparecem referências à proximidade com Lula e à composição eleitoral com Fabiano Contarato (PT), candidato à reeleição ao Senado.
Narrativas dos comentários
Os comentários foram processados e organizados em uma rede semântica formada por oito clusters. A estrutura desse grafo permite identificar as narrativas predominantes e as conexões entre candidatos, política nacional e questões relacionadas à administração pública e ao cotidiano dos capixabas.
O cluster amarelo, de maior peso na rede, concentra a disputa pelo governo do Espírito Santo. “Governador”, “Helder”, “voto”, “Lula” e “Salomão” são os cinco elementos de maior proeminência no núcleo.
Helder Salomão ocupa posição de destaque, enquanto a presença de Lula conecta a corrida estadual ao cenário nacional. A combinação de nomes, cargos e referências ao voto mostra que os comentários extrapolaram o conteúdo das entrevistas e incorporaram escolhas eleitorais mais amplas.
O cluster lilás, segundo de maior peso na rede, aproxima a disputa estadual das experiências administrativas municipais e reúne também reações dos usuários aos personagens das entrevistas. Os cinco elementos de maior proeminência são “😂😂😂😂”, “Vitória”, “😂😂😂”, “cara” e “😂😂😂😂😂”.
A forte presença do emoji de riso mostra que as reações não se expressam apenas por palavras, mas também por recursos visuais recorrentes nos comentários. A presença de termos relacionados à prefeitura e à gestão entre os demais elementos do núcleo reforça a utilização da atuação nas cidades como referência para avaliar os concorrentes ao Palácio Anchieta.
Essa dinâmica aparece especialmente nos comentários sobre Pazolini, que reúnem manifestações favoráveis à candidatura e críticas à sua atuação política. Entre as mensagens com maior número de curtidas está: “Não fez na prefeitura, agora vai fazer no estado? Acorda capixaba.”
O comentário soma 909 curtidas e 53 respostas em decorrência de uma postagem de A Gazeta, de 1º de setembro, com a manchete: “Pazolini diz que vai cortar cargos comissionados e bonificar efetivos por metas”.
Outras mensagens retomam medidas relacionadas aos servidores municipais e à previdência, enquanto uma parcela manifesta apoio eleitoral ao candidato.
Segurança e cotidiano
O cluster ciano, terceiro na hierarquia de maior relevância, desloca a discussão para problemas cotidianos, principalmente relacionados à segurança pública. “Rua”, “família”, “mundo”, “falou” e “crime” são as cinco palavras de maior proeminência.
A presença adicional de termos como “segurança”, “bairros” e “bairro” forma uma narrativa territorializada, na qual a escolha eleitoral é relacionada às condições vivenciadas nas cidades. Segurança pública registra 95 ocorrências na base, enquanto educação aparece em 65, saúde em 62 e mobilidade e transporte em pelo menos 56.
Menções a “calcinha”
Outro termo inusitado e recorrente no cluster ciano é “calcinha”, citado 34 vezes. Os comentários, em tom irônico, fazem referência a maio de 2025, quando o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, e a então vice-prefeita, Cris Samorini, foram filmados em um show da banda Calcinha Preta, em Teresina (PI).
A viagem gerou questionamentos da oposição pela ausência simultânea dos gestores do município após um compromisso institucional. Na época, a Prefeitura de Vitória informou que o deslocamento ocorreu de acordo com a Lei Orgânica Municipal e sem uso de recursos públicos.
O quarto núcleo, de cor laranja, volta a colocar Pazolini no centro da conversa, desta vez associado a personagens e pautas da direita. “Pazolini”, “🇧🇷”, “Flávio”, “projeto” e “Bolsonaro” são os cinco elementos de maior proeminência.
A bandeira do Brasil integra o repertório simbólico dessa comunidade ao lado de referências políticas explícitas. Flávio Bolsonaro (PL) e Bolsonaro aparecem associados à candidatura de Pazolini, enquanto “projeto” remete a discussões sobre propostas e gestão.
Nesse mesmo núcleo, o Banco Master e Daniel Vorcaro ampliam a discussão para temas da política nacional. As referências aparecem em 52 comentários, principalmente em questionamentos e críticas dirigidos a candidatos e aliados.
No cluster azul, o território capixaba ganha centralidade. “Espírito”, “Santo”, “capixaba”, “dinheiro” e “política” são os vocábulos de maior proeminência. O núcleo associa a identidade estadual a discussões sobre recursos e questões públicas, reforçando a presença de temas diretamente ligados ao Espírito Santo nas reações às entrevistas.
Referências à Apex
Outro termo em destaque no cluster é “Apex”, presente em 25 comentários, com 29 ocorrências devido à repetição em algumas mensagens. As referências incluem Pedro Chieppe Ferraço, filho de Ricardo Ferraço, cofundador, acionista e vice-presidente institucional da APX Investimentos. Um dos comentários, que recebeu sete curtidas e uma resposta, afirma: “Ferraço tem que falar sobre a APEX e seu filho que é um dos acionistas...”
A mensagem foi publicada em uma postagem de 4 de setembro de A Gazeta, em collab com a jornalista Letícia Gonçalves, intitulada “Candidatos ao governo do ES: o que Ricardo, Pazolini e Helder têm em comum”.
Vale ressaltar que, apesar da grafia “Apex” utilizada pelos usuários e identificada no cluster, as mensagens fazem referência à APX Investimentos. A empresa tem pedido de recuperação judicial com pendências documentais, conforme noticiado pela imprensa. Nos comentários, também aparecem questionamentos sobre uma CPI, relações com o governo estadual e investimentos, que refletem alegações e interpretações dos usuários.
A dimensão partidária e ideológica aparece com maior nitidez no cluster verde. “PT”, “direita”, “esquerda”, “petista” e “partido” são os cinco elementos de maior proeminência. A presença do ex-governador Renato Casagrande também aproxima a discussão da política estadual.
A política nacional atravessa o núcleo: Lula e PT aparecem em 497 comentários, enquanto Bolsonaro e bolsonarismo estão presentes em 149. Os números dimensionam a presença dessas referências, sem indicar, necessariamente, apoio ou rejeição.
Política e relações de trabalho
O cluster rosa reúne termos ligados à competição eleitoral e reações por meio de emojis. “😂😂😂😂😂😂”, “perder”, “políticos”, “ganhar” e “tinha” são os cinco elementos de maior proeminência, seguidos por “eleição”. O núcleo também aponta para a perspectiva de segundo turno.
Essa projeção aparece na segunda mensagem mais popular, com 868 curtidas e 29 respostas: “Meu voto será no Hélder Salomão, mas em um eventual segundo turno entre Ricardo Ferraço e Pazoline, eu voto Ricardo Ferraço 🙂”. O comentário foi publicado em um post de A Gazeta em collab com a CBN Vitória, em 1º de setembro, intitulado “Pazolini afirma que Flávio tem mostrado um debate nacional ‘muito equilibrado’”.
Por fim, o cluster salmão, de menor peso entre os oito, concentra a discussão sobre relações de trabalho e escala 6x1. Os cinco termos mais proeminentes são “escala”, “6x1”, “trabalhador”, “trabalhadores” e “reforma”.
A escala 6x1 aparece em 83 comentários, sobretudo em manifestações relacionadas a Helder Salomão, incluindo declarações de voto. “O único que defende o fim da escala 6x1 é @heldersalomao. Meu voto!”, afirma uma das mensagens. O tema também aparece em críticas dirigidas a outros candidatos.
Já o funcionalismo público e a previdência aparecem em 90 comentários, com referências à aposentadoria, contribuição previdenciária, reajustes e planos de carreira. As mensagens retomam experiências administrativas anteriores para cobrar posicionamentos dos candidatos.
Ausências e comentários residuais
Breno Barcelos (Missão) e Rafael Demuner (UP) ficaram fora das sabatinas da Rede Gazeta por não alcançarem ao menos 5% das intenções de voto na pesquisa Quaest contratada pelo grupo de comunicação. Os dois também não participam do debate da TV Gazeta de 29 de setembro por não pertencerem a partido ou federação com mais de cinco representantes no Congresso Nacional, conforme determina a legislação eleitoral.
Na análise da repercussão das sabatinas, a presença de Breno é residual e favorável. “Breno” aparece em apenas dois comentários, enquanto “Barcelos” não registra nenhuma ocorrência. Ambas as mensagens manifestam apoio à candidatura: “Pela incompetência demostrada desses e de outros candidatos de carreira aqui no ES, vou de renovação, vou de 1️⃣4️⃣ Breno.” e “Vou de Breno”. Demuner não recebeu nenhuma menção.


