A TV Globo havia programado para 1º de outubro, às 21h30, o último debate presidencial antes do primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. O encontro reuniria alguns dos principais candidatos para confrontar propostas e apresentar projetos para o país. No entanto, por volta das 20h40, a emissora anunciou o cancelamento, dando início a uma disputa de narrativas nas redes sociais sobre os responsáveis pela decisão e suas implicações para o processo eleitoral.
A Globo justificou a medida pela “insegurança jurídica” provocada por uma sequência de decisões judiciais que alteraram as regras previamente estabelecidas para o evento. Em 29 de setembro, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou a inclusão de Romeu Zema (Novo) entre os participantes.
Em 1º de outubro, a ministra Estela Aranha, também do TSE, proibiu a exibição do púlpito vazio identificado com o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e a formulação das perguntas que seriam dirigidas a ele. No mesmo dia, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido do Solidariedade e autorizou a participação de Renan Santos (Missão), inicialmente excluído porque seu partido não alcançava o mínimo de cinco parlamentares no Congresso Nacional exigido para o convite obrigatório.
Em meio às decisões judiciais, Flávio Bolsonaro (PL), que havia confirmado presença, desistiu de comparecer. Lula, por sua vez, já havia recusado o convite da emissora e anunciado uma entrevista ao Flow Podcast, com transmissão prevista para a mesma noite. Diante desse cenário, a Globo cancelou o encontro e divulgou uma nota afirmando que as decisões judiciais “tomadas momentos antes da realização do debate” representaram uma “interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”.
Nas redes sociais, o episódio provocou discussões sobre a atuação do Judiciário, as estratégias dos candidatos e os critérios de participação no confronto televisivo. Entre 1º e 6 de outubro, Instagram e X (antigo Twitter) reuniram 15.029 publicações, 5.789.071 comentários e 42.057.815 curtidas, totalizando cerca de 48 milhões de interações, consideradas também as repostagens no X. Somente os conteúdos do Instagram ultrapassaram 750 milhões de visualizações.
Repercussão no Instagram
O volume de publicações e interações no Instagram revela a dimensão da repercussão do cancelamento do debate presidencial. Em seis dias, foram registradas 11.564 publicações, que somaram 47.177.738 interações, entre curtidas e comentários. A rede semântica permite identificar os principais assuntos discutidos na plataforma e as conexões estabelecidas entre eles.
Os criadores de conteúdo digital (creator) respondem por 64,3% das publicações analisadas, o equivalente a quase dois terços do total. Embora os perfis comerciais (business) apresentem uma média maior de postagens por conta, sua participação corresponde a 33,7% do volume registrado. Já os usuários comuns representam menos de 2% dos conteúdos processados.
Entre as dez publicações com mais curtidas, sete são de criadores de conteúdo digital. O destaque é @zediogopt (1.075.094 curtidas), influenciador de esquerda que defendeu a decisão de Lula de não comparecer ao debate da Globo e conceder uma entrevista ao vivo ao Flow Podcast, canal com 6,8 milhões de inscritos no YouTube. Na postagem, argumenta que o formato televisivo poderia favorecer ataques dos adversários, enquanto a transmissão digital permitiria ao presidente apresentar suas propostas com mais tempo e sem interrupções.
Na sequência, aparecem os influenciadores @gabimartinsn (1.028.233 curtidas) e @pablomarcal1 (519.546 curtidas). O presidenciável Augusto Cury (Avante) também figura entre os conteúdos mais curtidos, ocupando a oitava posição, com 349.457 curtidas.
Três núcleos discursivos
A rede semântica do Instagram apresenta três agrupamentos relacionados às decisões judiciais, às estratégias eleitorais dos candidatos e às controvérsias sobre os critérios de participação no debate.
O núcleo rosa concentra publicações de caráter informativo sobre a decisão da ministra Estela Aranha e o anúncio do cancelamento pela TV Globo, que alegou interferência na sua liberdade de organizar o encontro. Nesse grupo, aparecem tanto críticas à atuação do Judiciário quanto questionamentos às regras estabelecidas pela emissora.
O cluster verde reúne discussões sobre as estratégias de Lula, que recusou o convite da televisão e optou por participar de um podcast de grande alcance digital, e de Flávio Bolsonaro, que desistiu do confronto após a confirmação da ausência de seu principal adversário. Também ganham espaço narrativas de censura e perseguição política, expressas em publicações com frases como “Globo censurada” e “judiciário fazendo política”, além de hashtags como #censura e #foralula.
Já o agrupamento azul concentra debates sobre candidatos presidenciais com baixa intenção de voto nas pesquisas e as regras para participação no evento. Entre os termos de maior destaque no grafo estão “romeu”, “zema”, “missão”, “nunes” e “marques”, associados às decisões que autorizaram a presença de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) no encontro previsto para 1º de outubro. A inclusão do primeiro foi determinada por Kassio Nunes Marques, enquanto a do segundo ocorreu por decisão de Gilmar Mendes.
A autorização para Renan Santos veio após o TSE rejeitar o pedido do Solidariedade e a ministra Cármen Lúcia, do STF, também negar sua participação. Diante das críticas à medida, Gilmar Mendes defendeu seu posicionamento ao afirmar que “quando incluíram Zema ninguém reclamou”.
O mesmo núcleo reúne publicações informativas que apresentavam os candidatos com presença confirmada até aquele momento — Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) —, além das reações ao cancelamento. Caiado criticou a interferência do Judiciário nas regras previamente estabelecidas para o evento, enquanto Zema classificou o episódio como “vergonha nacional”. Cury, por sua vez, realizou um protesto nas proximidades do STF, em 2 de outubro.
Ao reunir discussões sobre os critérios de participação e as decisões que determinaram a inclusão de presidenciáveis, o cluster azul estabelece uma ligação temática entre os outros dois agrupamentos: o rosa, voltado ao conflito entre a Globo e o Judiciário, e o verde, centrado nas estratégias eleitorais de Lula e Flávio Bolsonaro.

Disputas narrativas no X
Embora tenha registrado menos publicações do que o Instagram, o X (antigo Twitter) apresentou uma conversação marcada por diferentes interpretações políticas sobre o cancelamento do debate presidencial. A rede semântica revela núcleos discursivos organizados em torno das pesquisas eleitorais, de alegações de golpe e de críticas à TV Globo. Os agrupamentos indicam uma divisão entre versões sobre as responsabilidades pelo episódio e avaliações de suas consequências para os candidatos.
Ao todo, foram contabilizadas 3.465 publicações, que somaram 774.092 interações, entre curtidas, comentários e retuítes. Parte das discussões se concentrou na atribuição de responsabilidades pelo cancelamento, com argumentos divergentes sobre as circunstâncias que levaram à decisão da emissora.
O núcleo verde reúne críticas ao TSE e ao STF, cujas decisões judiciais são apontadas por internautas como responsáveis pela suspensão do encontro. Entre as manifestações, aparecem acusações de censura e alegações de uma suposta articulação entre Lula e a ministra Estela Aranha para impedir a exibição do púlpito vazio. Também há comentários que atribuem a desistência de Flávio Bolsonaro ao suposto “medo” de enfrentar Renan Santos, além de referências à participação do presidente no Flow Podcast, apresentada por usuários como a única transmissão ao vivo de um presidenciável naquela ocasião.
Já o agrupamento azul destaca os embates jurídicos que antecederam o cancelamento, com questionamentos à atuação dos ministros do STF e do TSE. Parte das postagens sustenta que as decisões teriam desrespeitado a legislação brasileira e ultrapassado os limites de competência do Judiciário. Essa interpretação aparece em manifestações como: “Tirania ou anarquia?Violação da Lei e da democracia? Se Gilmar mandar, não precisa cumprir a lei”.
O núcleo lilás concentra opiniões sobre os possíveis efeitos do episódio nas pesquisas eleitorais e críticas à TV Globo, acusada por internautas de defender a democracia apenas quando lhe convém. Também aparecem publicações que classificam o encontro como um “circo armado” contra Lula, com Renan Santos interessado em “participar do picadeiro”. Nesse agrupamento, as discussões se estendem à avaliação de quem “ganhou” ou “perdeu” politicamente com o cancelamento.
Por fim, o cluster rosa reúne comentários sobre a repercussão digital de Renan Santos, com referências a milhões de visualizações, ao aumento das buscas pelo candidato e à suposta relação entre sua participação no debate e a “desistência” de Flávio Bolsonaro. O grupo também apresenta citações da nota divulgada pela Globo, que destacou os “milhões de brasileiros” privados da oportunidade de comparar as propostas dos presidenciáveis.


