A análise do ecossistema político-eleitoral nacional no Instagram, entre 30 de setembro e 2 de outubro, revelou como atores políticos se apropriaram de uma sequência de decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para deslocar o foco da ausência de um confronto de propostas entre os candidatos, previsto para 1º de outubro na TV Globo, para narrativas de suposta “censura”.
A controvérsia teve origem na decisão que impedia a emissora de direcionar perguntas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e de exibir seu púlpito vazio. Nesse contexto, as discussões nas redes passaram a ser marcadas por alegações de restrições à liberdade de expressão e comparações dos números de audiência das transmissões ao vivo dos presidenciáveis, relegando a segundo plano o confronto de ideias e a discussão de propostas para o país.
Narradas como uma forma de censura por diversos atores desse ecossistema, as decisões do TSE sobre a dinâmica do debate presidencial, que seria promovido pela Rede Globo, alimentou ainda mais um desgaste já estabelecido sobre o poder Judiciário, estabeleceu associações com o atual governo federal e potencializou a abordagem sobre mudanças institucionais presentes na campanha do candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Suposta censura
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alimentou narrativas de suposta censura que ultrapassaram o questionamento às restrições impostas ao debate entre os candidatos, assumindo uma dimensão mais ampla de alegada interferência no processo eleitoral. Essa interpretação foi capitalizada por atores ligados a Flávio Bolsonaro (PL) e perfis de seus apoiadores, que associaram a medida ao descrédito do Poder Judiciário e ao discurso de enfrentamento ao chamado “sistema”.
Na análise, essa narrativa também aparece como um instrumento de desgaste político do governo Lula. Ao associar a decisão judicial a uma suposta proteção ao presidente, os conteúdos buscaram transferir a desconfiança em relação ao Judiciário para o candidato à reeleição, apresentado como parte de uma estrutura de poder contra a qual seus adversários afirmam lutar.
Entre os conteúdos que reforçaram essa interpretação, o perfil @paulovonixx, que alcançou 2,3 milhões de interações, afirmou que se tratava de “[...] uma intervenção de última hora do TSE por meio de uma decisão de uma ministra indicada por Lula [...]”. Já @geroufofocas, com 1,9 milhão, repercutiu a alegação de que “a ministra Estela Aranha do TSE atendeu a um pedido do Partido dos Trabalhadores (PT) e proibiu a TV Globo de exibir o púlpito vazio de Lula".
Na mesma linha, @brasilparalelo, com 1,8 milhão de interações, e @asatualidades, com 1,7 milhão, divulgaram imagens do púlpito vazio, cuja exibição havia sido proibida pela Justiça Eleitoral. As publicações fortaleceram a narrativa de que o “sistema” teria agido para proteger o presidente. Em conjunto, essas manifestações associaram a medida judicial à candidatura petista e a uma suposta ameaça à liberdade de expressão, ampliando a repercussão da controvérsia e alimentando a polarização política no Instagram.
Espetacularização
Um desdobramento das decisões sobre o debate deu origem a uma disputa narrativa em torno da audiência das lives. Muitos perfis passaram a destacar o desempenho dos candidatos nas transmissões realizadas como alternativa ao confronto televisivo, deslocando o foco do cancelamento do encontro na Rede Globo para discursos relacionados à visibilidade e ao engajamento nas plataformas digitais. Essa nova dinâmica ganhou força quando os dois principais concorrentes à Presidência, Lula e Flávio Bolsonaro, optaram por realizar eventos on-line em vez de participar do programa previsto pela emissora.
O ecossistema político-eleitoral passou, então, a privilegiar a performance midiática de seus líderes, reduzindo o espaço destinado à discussão dos planos de governo. A ausência do confronto de ideias na televisão e a migração para o ambiente digital não produziram um debate paralelo sobre propostas, mas uma competição pela capacidade de atrair audiência e sustentar a participação do público em tempo real.
A substituição da argumentação política por indicadores de popularidade evidencia a capacidade desse ecossistema de promover rápidos deslocamentos temáticos, convertendo acontecimentos institucionais e televisivos, como o cancelamento do debate, em espetáculos digitais. Nesse processo, atores políticos e perfis do Instagram contribuíram para transformar a eleição presidencial em uma espécie de reality show, no qual o desempenho dos candidatos passou a ser avaliado principalmente pelas métricas de engajamento.
Um conjunto de publicações reforçou essa lógica de espetacularização das métricas. O perfil @pragmatismopolitico (4,6 milhões de interações) anunciou que Lula estaria “rejeitando uma armadilha da Globo" ao participar do Flow Podcast no mesmo horário e destacou que internautas “prometeram recorde de audiência". Na mesma direção, @zediogopt (3,5 milhões de interações) utilizou hashtags associadas ao programa para afirmar que o presidente seria "o maior político desse país, doa a quem doer". Já @thiago_asmar (2,8 milhões de interações) recorreu à repercussão do evento para convocar boicotes, declarando que "quem é de direita e continuar inscrito nesse Flow Podcast (...) não tem vergonha na cara!".
Paralelamente, páginas de entretenimento de grande alcance, como @hugogloss, com publicações que registraram 2,7 milhões e 4,7 milhões de interações, ampliaram a circulação de trechos da entrevista, incluindo explicações e momentos de descontração de Lula, reforçando a percepção de que a participação no podcast havia se tornado o “verdadeiro evento da noite”.
A "Live Sem Censura", realizada por Flávio Bolsonaro como alternativa ao debate cancelado pela TV Globo, também ganhou repercussão nas plataformas digitais. A transmissão contou com a participação do empresário Pablo Marçal e foi destacada pelo perfil @leodias, que acumulou 2.086.717 interações em um conjunto de postagens sobre o evento. As publicações enfatizaram o momento em que Flávio chamou o candidato do PT de "fujão", além da presença de Marçal.
O @plenonews, em conteúdo que alcançou 769.777 interações, também ressaltou a participação do empresário e seu apelo para que “Flávio Bolsonaro derrote o PT”.
A valorização da audiência e da repercussão digital apareceu ainda no perfil @plnacional22, que registrou 964.449 interações ao reproduzir uma declaração do presidenciável: “A censura não irá vencer! Em respeito a todos que se prepararam e aguardavam um debate livre e democrático, farei uma live no meu canal do YouTube [...]"
Metodologia
A análise do ecossistema político-eleitoral nacional no Instagram, entre 30 de setembro e 2 de outubro, reuniu 79.570 publicações, que somaram 2.257.353.058 interações e 2.124.335 comentários. A partir de termos relacionados à eleição presidencial, os dados foram processados em um grafo de atores, permitindo identificar os perfis de maior destaque, suas conexões e a formação de grupos que pautaram as discussões na plataforma.

