Publicações que têm como foco os termos “inteligência artificial”, “eleições” e “democracia” nas redes sociais estão no centro da Controvérsia da Semana, seção do projeto IA para Democracia dedicada a temas relevantes da discussão pública no ambiente digital. Nesta edição, o levantamento busca compreender como esses assuntos se relacionam nas conversas on-line e de que maneira a tecnologia vem sendo associada ao processo eleitoral e às questões democráticas.
Diante do avanço acelerado das ferramentas de IA na criação de pesquisas, imagens e vídeos, inclusive com potencial de uso na produção de desinformação, a análise identifica as narrativas que ganham destaque e a percepção dos usuários sobre seus possíveis impactos no ciberespaço, sobretudo às vésperas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
No Instagram e no X (antigo Twitter), entre os dias 18 e 23 de setembro, foram coletadas 726 publicações sobre os assuntos, um volume relativamente pequeno se considerarmos as análises anteriores. Somadas, elas receberam cerca de 70.621 comentários e 10.084.449 interações. Apenas no Instagram, onde a base também disponibiliza esse indicador, foram registradas 9.663.196 visualizações.
O que parece mobilizar grande parte do discurso sobre inteligência artificial e democracia no contexto eleitoral é o “medo” dos usuários de que tais tecnologias possam, de alguma forma, assumir o controle de processos que, até então, não precisam ou não deveriam sofrer interferência digital.
No X, essa preocupação aparece em formatos humorísticos, sarcásticos e partidários, além de ser utilizada como recurso para complementar ataques a candidatos e às suas propostas. Em contrapartida, no Instagram, as menções à inteligência artificial aparecem nas legendas de figuras políticas que utilizam algum recurso generativo em suas campanhas ou em publicações relacionadas às recomendações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o uso dessas ferramentas nas eleições. Além disso, entre os conteúdos que ganharam destaque nas redes está o discurso de abertura do presidente Lula na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em 22 de setembro.
Narrativas no X
Entre os dias 18 e 23 de setembro, foram coletadas 125 publicações no X, que somaram 43.357 interações (considerando curtidas, comentários e retuítes). Trata-se de um volume elevado de engajamento para um número relativamente pequeno de postagens, com parte significativa da atenção dos usuários concentrada em poucos conteúdos. Esse material foi processado e adaptado para visualização em formato de rede semântica, o que permite analisar com mais clareza os termos mais frequentes e as associações entre eles, contribuindo para a compreensão dos temas e das narrativas que predominam no debate.
O grafo de palavras referente ao mapeamento das narrativas com maior circulação no X apresenta seis subgrupos que reúnem, por temáticas, as principais conversações sobre IA, democracia e eleições na plataforma.
O cluster azul refere-se ao discurso de Lula na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Na ocasião, o presidente tratou de temas como democracia e soberania nacional e fez uma dura crítica à falta de regulamentação das Big Techs e da inteligência artificial, que, segundo ele, concentram “tecno-oligarcas” que querem “ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência”. A fala repercutiu justamente por associar o avanço da IA a riscos para a soberania e a democracia, o que a conecta diretamente ao eixo discursivo analisado.
Também neste agrupamento, é possível notar a presença de publicações que repercutem a avaliação de Bruno Lewicki, diretor de Políticas Públicas da OpenAI na América Latina, de que o Brasil é um “laboratório do mundo e o grande teste de IA em eleições”.
Em outro núcleo da rede (cluster verde-claro), destaca-se o volume de posts sobre a preocupação de Lula, expressa em entrevista à CNN International, com uma possível interferência do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, nas eleições brasileiras, devido à proximidade do norte-americano com a família de Jair Bolsonaro. O presidente também mencionou possíveis indícios de interferência envolvendo inteligência artificial, mas sem detalhar evidências concretas.
Ainda sobre a preocupação com a influência da IA nas eleições, destaca-se o lançamento do Guia Internet, Democracia e Eleições (cluster verde-escuro), produzido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), que apresenta orientações, referências e recomendações para lidar com conteúdos produzidos por mecanismos generativos no ambiente digital. Nesse mesmo cluster, ganha espaço a conclusão apresentada no guia de que vídeos falsos criados por inteligência artificial e informações de baixa qualidade substituíram as tradicionais fake news e passaram a representar a principal ameaça digital às eleições e à democracia.
Os demais agrupamentos, de cor laranja, lilás e rosa, referem-se, respectivamente, (1) ao encontro de Lula com o senador Bernie Sanders, em Nova Iorque, para tratar de desafios globais, incluindo a governança da inteligência artificial; (2) à projeção de imagens de IA do candidato Flávio Bolsonaro (PL) entregando a faixa presidencial do Brasil a Donald Trump, conteúdo associado a alertas sobre o risco de interferência estadunidense nas eleições de 2026; e (3) à notícia de que a Meta aprovou anúncios políticos criados por inteligência artificial com informações falsas sobre as eleições, incluindo peças que conclamavam à repetição do 8 de Janeiro.
Além desses grupos, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes também ganhou destaque ao cobrar do TSE uma atuação diante dos riscos da IA e de interferências externas nas eleições, reforçando a dimensão institucional do debate.

Repercussão no Instagram
O Instagram apresentou movimentação semelhante à observada no X, com diferenças principalmente nos atores responsáveis pela circulação dos conteúdos e nos formatos utilizados. A plataforma concentra perfis de caráter informativo que, em vez de direcionarem o usuário a links externos, apresentam o conteúdo na íntegra, favorecendo a leitura imediata. Durante o período analisado, foram coletadas 601 publicações, que somaram 10.041.092 interações.
Nesse contexto, destacam-se as publicações sobre o discurso do presidente Lula na ONU (cluster verde), as regras para o uso de inteligência artificial generativa em campanhas eleitorais e o guia do CGI.br (cluster lilás), além da projeção de uma imagem criada com auxílio de IA em que o candidato Flávio Bolsonaro (PL) entrega a faixa presidencial do Brasil ao presidente dos EUA, Donald Trump (cluster laranja). Assim, o debate no Instagram converge com os principais temas identificados no X, mas é mediado por formatos que favorecem o consumo rápido da informação.
“Fakenudes”
Um grande alerta sobre o uso de inteligência artificial no contexto eleitoral está na frequência já observada de “fakenudes”, imagens falsas produzidas para atacar, humilhar e constranger mulheres na política. Embora não tenham sido identificadas nas publicações coletadas para esta análise, menções a candidatas que tenham sido alvo desse tipo de difamação, nem a usuários ou portais de notícias que tratem do assunto, é preciso acompanhar essa movimentação com atenção.
A ausência do tema no debate das redes não significa que o problema inexista, mas pode indicar que ele ainda é pouco visibilizado, o que reforça a necessidade de monitoramento nas próximas semanas, sobretudo com a proximidade das eleições.



