As articulações partidárias, as pesquisas eleitorais e as estratégias dos candidatos marcaram a cobertura de Vitor Vogas, de A Gazeta, durante o primeiro turno das eleições de 2026. A aproximação de Lorenzo Pazolini (Republicanos) de Ricardo Ferraço (MDB) nas intenções de voto para o comando do Palácio Anchieta, as contradições das alianças políticas e a influência do bolsonarismo estiveram entre os principais assuntos analisados. Embora tenha apresentado críticas a representantes da direita e da esquerda, o colunista dedicou maior atenção às movimentações eleitorais do que à comparação das propostas de governo.
O levantamento do Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), no âmbito do projeto IA para Democracia, reúne 62 colunas publicadas entre 16 de agosto e 4 de outubro, período de 50 dias. A análise identifica uma cobertura predominantemente analítica e opinativa, que combinou informações de bastidores, interpretação de pesquisas e avaliações sobre candidatos e partidos. O grafo de palavras apresenta três agrupamentos temáticos, identificados pelas cores laranja, lilás e verde, que evidenciam os principais enfoques do trabalho jornalístico.
As frequências apresentadas correspondem às ocorrências dos termos identificados no grafo, não a métricas de engajamento. Além disso, a avaliação editorial não estabelece uma classificação quantitativa de críticas e elogios por candidato ou campo político.
Características da cobertura
A disputa pelo governo do Espírito Santo constituiu o principal eixo da cobertura. No cluster laranja, Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini, que avançaram para o segundo turno das eleições, aparecem entre os nomes de maior destaque, com 511 e 446 ocorrências, respectivamente. O agrupamento também reúne referências a Helder Salomão (PT), pesquisas eleitorais, posicionamentos ideológicos e estratégias de campanha.
Ao longo do período, o foco passou das articulações iniciais para o desempenho dos concorrentes nas pesquisas. Vogas acompanhou a vantagem de Ricardo, associada à continuidade da gestão do ex-governador e senador eleito Renato Casagrande (PSB), e o crescimento de Pazolini na reta final. As análises dos levantamentos da Quaest ultrapassaram a apresentação das intenções de voto, examinando diferenças de desempenho conforme idade, renda, religião e identificação política dos eleitores.
O cluster lilás concentra as articulações partidárias, a composição de chapas e as disputas por vagas no Senado e na Câmara dos Deputados. Entre os termos mais frequentes estão campanha (222), Casagrande (199), PL (175) e Senado (170). A cobertura destacou negociações, alianças e divergências envolvendo o senador Magno Malta (PL), o senador Fabiano Contarato (PT), derrotado nas eleições de outubro, o deputado federal e senador eleito Evair de Melo (Republicanos), a ex-senadora Rose de Freitas (MDB) e outras lideranças. Essas movimentações evidenciaram a complexidade dos acordos eleitorais, com aproximações e conflitos que ultrapassaram as divisões ideológicas tradicionais.
Já o cluster verde reúne conexões com a política nacional e as instituições, com destaque para PT (168), Lula (121), Bolsonaro (115), Flávio (87) e STF (54). O agrupamento evidencia como as eleições no Estado foram relacionadas à disputa presidencial, especialmente por meio das alianças de Pazolini com lideranças bolsonaristas e da relação de Ricardo com o eleitorado identificado com o presidente Lula (PT).
Além dos bastidores, Vogas examinou questões relacionadas à educação, à segurança pública, ao meio ambiente e à representatividade feminina. Em textos específicos, confrontou informações apresentadas pelos candidatos com indicadores oficiais, oferecendo elementos para avaliar os argumentos utilizados nas campanhas.
O conjunto revela uma cobertura voltada à interpretação das movimentações políticas, mas que também incorporou análises sobre políticas públicas e questões institucionais.

Críticas e contradições políticas
Uma das características mais relevantes foi a presença de críticas fundamentadas dirigidas a diferentes campos políticos. O colunista questionou representantes do bolsonarismo, integrantes do PT e estratégias dos principais candidatos ao governo do Espírito Santo.
Entre os posicionamentos mais contundentes está a avaliação sobre a conduta de Gilvan da Federal (PL). Na coluna "Não do TRE a Gilvan é pedagógico: doutrina da agressão gratuita não pode prosperar", publicada em 11 de setembro, Vogas condenou o uso recorrente de insultos e ataques pessoais na atividade parlamentar, defendendo a necessidade de preservar o respeito e o debate democrático.
No campo da esquerda, em "Contarato e o 'dom de (se) iludir'. Ou: o negacionismo do PT sobre os próprios erros", publicada em 21 de setembro, o jornalista questionou o posicionamento de Contarato e a postura do partido diante de episódios de corrupção, durante a sabatina com o então candidato à reeleição ao Senado. A crítica se concentrou na resistência em reconhecer irregularidades e contradições da própria trajetória política.
Outro exemplo expressivo aparece em "Possíveis crimes de Moraes não reescrevem a biografia da família Bolsonaro". No texto publicado em 24 de setembro, Vogas identificou estratégias discursivas semelhantes utilizadas pelo bolsonarismo e pelo lulismo para relativizar erros de seus respectivos grupos. O jornalista argumentou que possíveis irregularidades cometidas por autoridades não anulam responsabilidades atribuídas a outros personagens políticos.
Um dos trechos dessa coluna ilustra o raciocínio do autor: "Quando se trata do bolsonarismo e do lulismo, os dois polos antagônicos operam estratégias discursivas e cognitivas similares para, basicamente, negar fatos desabonadores".
As avaliações também alcançaram Ricardo e Pazolini. Em "O paradoxo de Ricardo: não quer saber de Lula, mas vence na esquerda... e precisa dela", de 29 de setembro, o colunista examinou o distanciamento do candidato em relação ao presidente, apesar de seu desempenho favorável entre eleitores lulistas.
No caso de Pazolini, os questionamentos envolveram os riscos da aproximação com Magno Malta e o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), especialmente diante da necessidade de conquistar eleitores menos identificados com o bolsonarismo. O jornalista, entretanto, também reconheceu sua capacidade de articulação, destacada em "O grande vencedor político da pré-campanha eleitoral no ES", publicada em 16 de agosto.
Esses exemplos demonstram que as críticas não ficaram restritas a um campo ideológico. Entretanto, a diversidade de posicionamentos não comprova, isoladamente, neutralidade editorial. Uma conclusão sobre equilíbrio exigiria comparar a frequência, a intensidade e o contexto das avaliações dirigidas aos diferentes atores políticos.
Pontos de atenção
O ponto de atenção identificado está na maior centralidade dos bastidores, das pesquisas e das estratégias eleitorais em relação à discussão sistemática das propostas de governo. O enfoque privilegiou as articulações partidárias e as possibilidades de vitória, oferecendo menor espaço à comparação dos programas apresentados pelos candidatos.
Essa característica, entretanto, precisa ser contextualizada. Vogas produziu análises substantivas sobre políticas públicas, especialmente ao confrontar indicadores de segurança e educação utilizados durante a campanha. Na coluna "Violência no Espírito Santo: as boas e as más notícias na guerra eleitoral de narrativas", publicada em 17 de setembro, o jornalista examinou diferentes recortes estatísticos para avaliar argumentos do governo capixaba e da oposição. Já em "Educação no ES: os números reais no debate eleitoral entre Ricardo, Helder e Pazolini", de 24 de setembro, recorreu a dados oficiais para verificar as afirmações dos concorrentes.
Esses conteúdos demonstram que a cobertura não ficou restrita às estratégias partidárias, embora o aprofundamento das discussões sobre políticas públicas tenha ocupado espaço secundário no conjunto das publicações examinadas durante o primeiro turno.
Outro ponto de atenção é a personalização da disputa. A recorrência de Ricardo e Pazolini é compreensível diante de seu protagonismo eleitoral no Espírito Santo, mas reforçou uma narrativa concentrada nas estratégias individuais. Na reta final, o acompanhamento das pesquisas ganhou ainda mais destaque, embora tenha sido acompanhado de interpretações detalhadas sobre o comportamento dos diferentes segmentos do eleitorado.
Também é necessário considerar que a menor presença de discussões sobre propostas governamentais pode refletir as prioridades estabelecidas pelas próprias campanhas. Assim, o material analisado não permite atribuir essa característica exclusivamente às escolhas editoriais do jornalista, uma vez que o noticiário também responde aos temas privilegiados pelos concorrentes ao comando do Palácio Anchieta.


