A disputa acirrada entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial ganhou uma nova frente de confronto nas redes sociais, com dois fenômenos de mobilização política: a “Tropa do Flávio” e o “Exército do Lula”. Organizados em canais de WhatsApp, os grupos articularam eleitores e parlamentares. O embate chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e intensificou as acusações entre as campanhas sobre suposto tratamento desigual pela Justiça Eleitoral.
Além das polêmicas judiciais envolvendo os dois canais, destaca-se a repercussão digital do assunto. Somente no X (antigo Twitter), a coleta, processada a partir de um conjunto de termos associados à temática analisada, reuniu 3.583 publicações entre 13 e 21 de outubro, totalizando 562.756 interações, distribuídas entre 428.497 curtidas (favoritos), 108.166 retuítes e 26.093 comentários.
O levantamento identificou uma frequência significativamente maior de referências ao “Exército do Lula” (72,4%) em comparação com a “Tropa do Flávio” (14,4%), diferença que acompanha o maior número de seguidores do grupo ligado ao candidato à reeleição.
Surgimento dos canais e alcance em números
O “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), aliado do presidente, acumulava 3,8 milhões de membros até 12 de outubro. Dez dias depois, em 22 de outubro, ultrapassou 8 milhões de “soldados” e estabeleceu a meta de alcançar 10 milhões antes da votação do segundo turno, marcada para o dia 25.
O canal “Tropa do Flávio”, idealizado pelo deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO) e municiado com conteúdo produzido pelo deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) e pelo coach Pablo Marçal, tem como principal objetivo difundir conteúdos de campanha e convocar apoiadores a reagir às mensagens do “Exército do Lula”.
Segundo reportagem do UOL, o grupo reúne cerca de 2 milhões de integrantes. Na descrição do canal, os eleitores são convidados a se unir “contra a fake news da esquerda”.
Análise semântica
A rede semântica, representada por um grafo com sete núcleos (clusters), revela a predominância de publicações favoráveis a Lula e críticas a Flávio Bolsonaro. O dia 21 de outubro registrou o pico de postagens, com 2.261 conteúdos. Na mesma data, a marca de 7 milhões de integrantes do “Exército do Lula” recebeu atenção de veículos de comunicação, especialmente o Metrópoles, que noticiou o acontecimento e comparou o número de membros dos dois grupos.
No agrupamento verde, destacam-se termos como “bater”, “10m”, “meta”, “missão”, “janones”, “exército”, “lula”, “canal”, “live” e “24h”. As palavras estão associadas a duas iniciativas do canal de apoio ao presidente: alcançar 10 milhões de integrantes até sábado, 24 de outubro, véspera do segundo turno, e realizar uma transmissão ao vivo de 24 horas, conduzida por Janones. A live tem início previsto após o debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23), com continuidade ao longo do sábado.

Narrativas com maior circulação no X
A mobilização também ganhou espaço entre os “Assuntos do Momento” no X, com hashtags como #LulaEJanonesAoVivo19hs e #8MilhoesDeSoldadosDoLula. Na mesma plataforma, circularam expressões críticas a Flávio Bolsonaro, como #FlavioEsquemaPandemia, “Flavinho de Papai”, “Flávio Surubinha”, “Flávio Arregão” e “Flávio Ladrão Esconde Dinheiro”. Esses conteúdos integram a disputa por visibilidade digital, com acusações, apelidos e mensagens associados ao contexto eleitoral.
O elevado número de seguidores do “Exército do Lula” também provocou questionamentos entre internautas contrários ao petista, que contestam sua correspondência com o desempenho nas urnas. Para esses usuários, o resultado que realmente importa é aquele que “sai no dia 25, como foi no dia 04”. Alguns levantam suspeitas, sem apresentar evidências, de que parte dos integrantes seja formada por bots, seguidores comprados ou infiltrados da direita.
Em uma das mensagens analisadas, um usuário afirma que, diferentemente da esquerda, “a direita não segue comandos, somos independentes em nossos pensamentos e orgânicos nas nossas postagens nas redes!”. Ele acrescenta que seus apoiadores se unem por um propósito e que a “Tropa do Flávio” teria apenas a finalidade de “se informar”.
O cluster laranja reúne publicações de perfis de esquerda que atacam Flávio Bolsonaro e incentivam eleitores a "pesquisar no Google" expressões como “Flávio dono de bet”, “Flávio e Comando Vermelho” e “sala 2601”. Em algumas postagens, a tática é atribuída a André Janones, embora o levantamento não permita confirmar que tenha partido dele.
Também circularam hashtags como #AbreOSigiloFlávio, #LulaAbriuOSigiloFlavioArregou, #FlavioMiliciano e #FlavioMentiroso, utilizadas para divulgar acusações e questionamentos ao candidato.
A hashtag #QuemÉMarianaFlávio, mencionada 52 vezes no levantamento, integra uma estratégia de suspense utilizada por Janones, que prometeu que “o Brasil inteiro vai saber” quem é Mariana quando o canal alcançasse 7 milhões de integrantes. A meta de inscritos funcionou como gatilho de revelação, condicionando a divulgação da identidade à expansão do grupo. O deputado federal, porém, não esclareceu a quem se referia.
O nome pode remeter a Mariana Mota, que foi chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro entre 2003 e 2007, durante seu mandato como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), exercido de 2003 a 2018. Reportagens publicadas em 2019 e 2021 citaram Mariana como suposta operadora de um esquema de rachadinhas antes de Fabrício Queiroz. A prática consiste no repasse irregular de parte dos salários de assessores parlamentares a políticos ou intermediários. As investigações envolvendo Flávio ganharam repercussão em 2018, após a identificação de movimentações financeiras atípicas de Queiroz, seu ex-assessor.
Nos agrupamentos menores da rede semântica, identificados pelas cores vermelho, rosa e azul, aparecem diferentes narrativas relacionadas à disputa presidencial. O núcleo vermelho reúne publicações que acusam o TSE de censura, com expressões como “a ditadura já começou” e “golpe eleitoral”, além de hashtags como #MendonçaQuerCalarExércitoDoLula e #CensuraNuncaMais.
No rosa, predominam manifestações de apoio a Lula que, embora se distanciem da ideia de “time”, incentivam a vitória eleitoral e celebram o que seus participantes consideram um feito histórico de mobilização política. Já o azul concentra acusações contra Flávio, incluindo alegações de que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria ordenado a morte de Lula e de supostas ligações do senador com o Comando Vermelho.
A contraofensiva bolsonarista aparece no agrupamento lilás, com menções à lobista Roberta Luchsinger e alegações sobre seu suposto envolvimento com Lula e seu filho, Lulinha. Nesse núcleo, destacam-se expressões como “Lula pai da mentira” e “Acabou pro Lula”, reproduzidas em publicações semelhantes por um número restrito de perfis. A estrutura do agrupamento apresenta conexões densas e relativo isolamento na rede.
Já o núcleo amarelo reúne postagens recorrentes de um apoiador bolsonarista com pedidos de oração, sem relação direta com o debate analisado.
Embates no TSE
O conflito chegou ao TSE após a campanha de Flávio solicitar a suspensão do “Exército do Lula”, sob a alegação de disseminação de desinformação. Em 11 de outubro, o presidente da Corte, Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal por falta de registro. A medida foi revertida pouco depois, e a decisão definitiva caberá ao plenário do tribunal. No dia 13, a campanha de Lula registrou oficialmente a iniciativa, enquanto a de Flávio anunciou que complementaria seu registro para incluir a “Tropa do Flávio”.
O grupo ligado a Nikolas Ferreira também se tornou alvo de pedidos na Justiça Eleitoral. A campanha de Lula solicitou sua suspensão por 48 horas, alegando tratamento desigual, uma vez que o “Exército do Lula” havia sofrido medida semelhante. A deputada Erika Hilton (Psol-SP) também acionou o TSE contra o canal, apontando a falta de registro.
A campanha de Flávio respondeu que a “Tropa” está devidamente registrada no tribunal. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o grupo estaria divulgando informações falsas, incluindo um vídeo que mostraria uma mulher supostamente usando drogas durante uma manifestação de Lula.
As decisões divergentes no TSE ampliaram o impasse. O corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva pediu urgência para que o plenário examinasse o caso do “Exército do Lula”, enquanto Lula afirmou que a Justiça Eleitoral não pode ter preferência política. Do início da campanha até 4 de outubro, as duas candidaturas já haviam apresentado 470 ações uma contra a outra: 227 por Lula e 243 por Flávio.
A análise das publicações no X identifica como a disputa entre os canais ultrapassou a busca por novos integrantes e se estendeu às estratégias de comunicação, às acusações entre apoiadores e aos questionamentos sobre decisões da Justiça Eleitoral. As metas de adesão, as campanhas de hashtags e a circulação de conteúdos críticos aos presidenciáveis compõem os principais eixos das discussões monitoradas às vésperas do segundo turno.


