O primeiro debate presidencial de 2026 extrapolou a transmissão televisiva e se tornou objeto de uma ampla disputa de sentidos nas redes sociais. Essa repercussão do encontro realizado pela Band, em 23 de agosto, é o tema da primeira análise da seção “Controvérsia da Semana”, que acompanha assuntos de ampla repercussão relacionados às eleições, à inteligência artificial e à democracia.
Nas plataformas digitais, circularam interpretações sobre o cenário eleitoral, avaliações sobre os candidatos e reações às estratégias adotadas antes, durante e depois do evento. Para compreender essas narrativas, foram analisadas publicações ao longo de oito dias, entre 20 e 27 de agosto, nas redes Instagram e X. Os dados foram processados e transformados em redes semânticas, permitindo visualizar os principais temas que mobilizaram as conversas. A análise nas duas plataformas reuniu 4.749 publicações e totalizou 210.526.747 interações coletadas.
Realizado pela Band, o debate reuniu três dos seis presidenciáveis convidados: Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). A ausência dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), foi repetidamente criticada pelos participantes presentes e se tornou um dos principais focos de controvérsia identificados na análise. Romeu Zema (Novo) também não compareceu ao encontro.
Repercussão no Instagram
No período analisado, foram coletadas 3.429 publicações no Instagram, que, juntas, somaram 210.391.972 interações, entre curtidas, comentários e visualizações.
O processamento desse conteúdo resultou em um grafo de palavras com sete clusters (subagrupamentos), cinco deles concentrados nos principais aspectos que mobilizaram a repercussão do debate: a ausência de Lula e Flávio; a performance de Renan, que levou fraldas com os nomes dos adversários, chamou-os de “covardes” e criticou a proposta de redução da jornada de trabalho com manutenção de renda, classificando-a como enganosa; e a atuação de Cury, que chamou a atenção de telespectadores e internautas, impulsionou buscas por seu nome no Google e sinalizou um potencial crescimento em sua intenção de voto.
Os termos de maior destaque no grafo sobre o mapeamento das narrativas com maior circulação no Instagram — como “renan”, “santos”, “candidato”, “ausência”, “debate”, “band”, “presidencial”, “flavio”, “bolsonaro”, “romeu”, “zema”, “augusto”, “cury” e “caiado” — reforçam os principais temas e atores presentes na discussão analisada.
No âmbito metodológico, observou-se que a comunicação que circula no Instagram é produzida principalmente por influenciadores, veículos de notícias de diferentes regiões do país, figuras políticas e páginas dedicadas a conteúdos de política, fofoca, humor, entretenimento e celebridades.
Em sua maioria, as publicações têm caráter informativo e registram pouca participação de usuários comuns. Esse cenário está relacionado tanto às características da coleta, que prioriza contas públicas com 25 mil ou mais seguidores ou contas verificadas, quanto ao fato de uma parcela significativa das conversas ocorrer na seção de comentários das publicações.
A título de exemplo, a publicação com maior número de comentários da base analisada permite observar que alguns eleitores que declararam intenção de votar nulo, em branco ou de não votar passaram, após o debate, a considerar Augusto Cury uma opção viável para a Presidência da República. Um dos comentários, com mais de 28 mil curtidas, escreve: “70 pelo fim do fanatismo político e o início de novas ideias”. Outro, com mais de 3.900 curtidas, diz: “Gente por favor!!! Vamos olhar por um novo ponto de vista”.
Outros questionaram a polarização política entre lulistas e bolsonaristas e manifestaram confiança no potencial de novos nomes para abrir caminhos alternativos na política brasileira, como exemplificado no comentário com cerca de 2.600 curtidas: “A polarização infelizmente ainda tá bem alta aqui. Em um país decente Flávio não teria 3% e Lula nem 1%”. Essa dinâmica de respostas e curtidas entre os participantes amplia a circulação dessas percepções e contribui para prolongar a discussão na plataforma.
Dinâmica no X
No X (antigo Twitter), a repercussão assume características distintas. A plataforma privilegia textos curtos e as chamadas “threads”, que organizam conteúdos em sequência e favorecem a circulação imediata das diferentes contribuições ao debate. A participação de usuários comuns também se mostra mais evidente, já que o ambiente permite que pessoas sem notoriedade pública interajam diretamente com políticos, figuras influentes e veículos de imprensa. Essa configuração favorece uma dinâmica mais horizontal e voltada à discussão em tempo real.
Entre 20 e 27 de agosto, foram identificadas 1.320 publicações no X, que, juntas, somaram 134.775 interações, entre comentários, retweets e favoritos. Nesse ambiente, o retweet desempenha uma função particular na disseminação de conteúdos, pois funciona como uma forma de compartilhamento que pode ou não ser acompanhado por novos comentários. Ao ser repostada, uma publicação passa a integrar o perfil do usuário e pode aparecer no feed de seus seguidores, que também têm a possibilidade de redistribuí-la. Esse mecanismo amplia o potencial de propagação das narrativas e favorece sua circulação em cadeia.
A rede semântica formada a partir desse conjunto reuniu 11 subagrupamentos, com temas semelhantes aos observados no Instagram. A principal diferença esteve na presença mais acentuada de palavras de baixo calão, insultos e manifestações de ridicularização dos candidatos e do cenário eleitoral. Entre os termos de maior destaque estão “band”, “cury”, “santos”, “bolsonaro”, “presidencial”, “candidato”, “lula”, “renan”, “caiado”, “zema”, “flavio” e “debate”.
A associação de “covardia” a Lula e Flávio ganhou força na plataforma e expressou a insatisfação de parte dos usuários com a “fuga” dos dois ao enfrentamento direto na televisão aberta. A ausência de Flávio, contudo, também foi interpretada como uma decisão estratégica, já que o candidato do PL havia afirmado que não participaria de debates sem a presença de seu principal concorrente. Um comentário com mais de 167 mil visualizações destaca: “A eleição do @FlavioBolsonaro é contra o Lula. Se Lula não vai a um debate, é evidente que não tem porque o Flávio ficar dando ibope e palanque para os irrelevantes. É normal que estes fiquem chateados, mas essa é a estratégia correta”.
Outras manifestações se mostraram favoráveis à atuação de Renan Santos, descrita por alguns usuários como estratégica e “genial”. Uma delas afirma: “Depois que eu analisei o desempenho de Renan de forma geral… percebi que a construção do discurso dele foi perfeita. Ele passou até a metade do debate batendo no Lula, e pouco depois do final, quando o eleitor bolsonarista estava com as armas abaixadas, criticou o Flávio. GÊNIO”.
Essa avaliação do internauta, entretanto, não foi unânime. Uma publicação com mais de 500 visualizações ridicularizou o candidato do partido Missão por atitudes consideradas infantis ou performáticas, resumidas na frase “criança não vota”.
A ausência de Romeu Zema ao debate, assim como a não presença de Lula e Flávio, também provocou descontentamento, sobretudo entre usuários identificados com a direita e a centro-direita. Também foram identificadas críticas ao jornalismo, como na afirmação: “Só a escumalha da imprensa decadente brasileira!”.
Já a repercussão sobre o candidato Augusto Cury apresentou contraste entre as plataformas: enquanto no Instagram sua atuação despertou uma percepção favorável e maior interesse, no X sua presença foi praticamente imperceptível, com desempenho considerado “genérico”, assim como o de Ronaldo Caiado.

